quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Uma jarra de faiança portuguesa do séc. XIX



Nos últimos tempos tenho escrito pouco sobre faiança portuguesa e não é porque tenha perdido o entusiasmo pelo assunto. Mas colecionar faiança exige muito espaço, coisa que na minha antiga casa de assoalhada e meia me faltava. Se os pratos e as travessas podem ir para a parede onde há sempre lugar para mais um, jarras, terrinas ou canudos têm que ser expostos em prateleiras e só terrinas em faiança tenho pelo menos uma seis, fora as de porcelana, mas isso é outra história. Também é verdade, que como a faiança portuguesa raramente é marcada, faltam-me elementos para escrever textos com informação significativa sobre as peças.


A jarra não apresenta marca


Mas, o meu amigo Manel ofereceu-me nos anos uma jarra de faiança azul e branca de que gostei tanto, que resolvi apresenta-la aqui, embora não esteja marcada. Desde logo me pareceu uma peça de meados do século XIX e da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, em Gaia. Com efeito, já folheei tantas vezes a tese de mestrado Laura Cristina Peixoto de Sousa sobre aquela fábrica, que tenho presente na memória, muitas imagens que publicou e tinha quase a certeza de lá ter visto uma jarra igual ou semelhante a esta.

Imagem retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista. / Laura Cristina Peixoto de Sousa, 2013


Voltei a consultar esta tese, em que autora relaciona os achados das escavações arqueológicas no local da antiga fábrica, mais exatamente num tanque atulhado em 1848, com as peças existente nos museus portugueses. E com efeito, na parte dedicada ao Museu Nacional Soares dos Reis consta uma jarra inventariada com o número 408 Cer CMP/ MNSR muito semelhante a minha, que se atribui à Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, embora não esteja marcada.

Essa mesma jarra já tinha sido reproduzida no catálogo da exposição Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle, de 2004, já então era atribuída aquela fábrica de Gaia e datada do segundo quartel do século XIX.

Imagem retirada de Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle = Cerâmica portuguesa do século XVI ao século XX



A decoração e a forma são muito idênticas à minha, só que jarra do Museu Nacional de Soares dos Reis apresenta umas asas.

Procurei obter mais informações no inventário geral dos museus nacionais portugueses, o Raiz e com efeito encontrei na colecção daquele museu do Porto, mais umas jarras com decoração e formas muito semelhante à minha, mas nas fichas descritivas a informação é escassa e no centro de fabrico consta apenas Vila Nova de Gaia, com uma interrogação.

Jarra da colecção do Museu Nacional Soares dos Reis, inv. 748 Cer CMP/ MNSR


Em suma, é provável que esta jarra tenha saído da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, no segundo quartel do século XIX, mas não é possível ter a certeza. Quem está familiarizado com a faiança portuguesa do século XIX sabe bem que as produções das fábricas do Porto e Gaia eram muitas vezes semelhantes entre si e por consequência esta jarra poderá também ser de outra manufactura dessas duas cidades.




Alguma bibliografia e ligações consultadas:

A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista. / Laura Cristina Peixoto de Sousa, 2013 https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/75570?mode=full

Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle = Cerâmica portuguesa do século XVI ao século XX / coord. científica Roland Blaettler, Paulo Henriques ; textos de Roland Blaettler, João Pedro Monteiro, Alexandre Nobre Pais, Margarida Revelo Pinto e Paulo Henriques . - Lisboa : Museu Nacional do Azulejo, 2004

Raiz, bens culturais on-line

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Dois oveiros da Vista Alegre do século XIX


Apesar de agora viver numa casa relativamente grande, continuo com o hábito de comprar coisas pequenas. Isto deve ter a ver com qualquer coisa profunda da psicologia, talvez com um desejo inconsciente de continuar a rodear-me de pequenas coisas à medida do mundo da minha infância.

A marca nº 17, usada entre 1870-1880


Desta forma, na última feira de Estremoz comprei por um preço muito simpático dois oveiros da Vista Alegre, com a marca nº 17, usada entre 1870-1880. Como o nome indica, estas peças eram usadas para servir ovos, que eram previamente cozidos, mas de forma a deixar as gemas mais ou menos líquidas e eram comidos com o auxílio de uma pequena colher de chá. Creio que aqui em Portugal este hábito de comer assim os ovos nunca esteve muito difundido e os oveiros são uma tipologia, que aparece pouco no mercado de velharias, embora se fossem fabricando. O meu amigo Manel tem um de faiança da fábrica de Viana e na base de dados dos museus nacionais o Raiz encontrei um de Miragaia e ainda um conjunto da Vista Alegre do Palácio Nacional da Ajuda. Estes últimos apresentam exactamente o mesmo formato dos meus, mas claro com uma decoração mais refinada pois estavam ao serviço da casa Real.

A marca nº 17, usada entre 1870-1880


Talvez por serem pouco usados, os oveiros aparecem mencionados aqui e acolá com diferentes designações, como suporte para ovos, ou ainda copo para ovos. Mas António Cota Fevereiro, que estudou os documentos das encomendas da Casa Real à fábrica da Vista Alegre, neles encontrou sempre estas peças designadas como oveiros, que será portanto o termo mais correcto.

Os oveiros são ligeiramente inclinados


Estes dois oveiros apresentam uma característica curiosa, que é visível na fotografia, foram fabricados tortos, com uma inclinação para um dos lados. Já encontrei essa particularidade em chávenas mais antigas da Vista Alegre, que no início tomei como defeito de fabrico, mas creio que terá ver como uma razão funcional, que me escapa, talvez para no momento depois da lavagem, água escorre-se melhor ou para verter melhor o creme da gema ou do chá. Enfim, não sei.

Quanto à decoração com florinhas e alguns apontamentos de dourado foi típica da Vista Alegre durante dezenas de anos. Os mestres desta fábrica inspiraram-se nos modelos da porcelana francesa, mas simplificaram-nos e o resultado é uma pintura delicada, mas sem afectação, nas palavras felizes de Maria de Azevedo Coutinho, em Vista Alegre: porcelanas. – Lisboa: INAPA, 1989.




Ligações consultadas e alguma bibliografia:

A Real Fabrica de Porcelana da Vista Alegre, o rei D. Fernando II e a condessa d’Edla, parte 2 / António Cota Fevereiro



Vista Alegre: porcelanas. – Lisboa: INAPA, 1989.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O general, a fidalga desencaminhada e o bacharel louco: histórias esquecidas




Tratar o espólio documental de uma família é um trabalho fascinante. Ler cartas escritas há 150 anos é como se estivéssemos a ouvir as vozes e os pensamentos de quem há muito morreu e desta forma vamos conhecendo aos poucos os traços da personalidade dos antepassados e ao mesmo tempo uma época tão diferente da nossa. Talvez por experimentar um prazer tão grande na leitura dessas cartas sinta necessidade de as partilhar com outras pessoas e convida-las a viajar numa espécie de máquina do tempo. Bem sei que é uma analogia simplista, mas é esse sentimento, que se experimenta durante a leitura destes documentos.

Desta vez escolhi umas quantas cartas onde os protagonistas foram a minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902) os meus tios trisavôs o General António Ferreira Montalvão (1840-1919), Miguel José Ferreira Montalvão (1838-1890), mas também num plano secundário o companheiro da primeira, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935), meu trisavô e o filho que tiveram em comum, José Maria Ferreira Montalvão (1878-1965)

Os três irmãos tiveram destinos muito diferentes, o General António Ferreira Montalvão fez uma carreira brilhante nas armas, foi um matemático conceituado, chegando mesmo a Comandante do que é hoje a Academia Militar. Casou muito bem, com uma senhora da boa sociedade lisboeta, Mariana das Mercês Bravo Borges (1858-1888) e juntos tiveram uma filha, Elina Bravo Borges de Ferreira Montalvão, uma virtuose do piano. O irmão, Miguel José, formou-se em direito em Coimbra, mas apaixonou-se por uma prima ingrata, acabou por enlouquecer, morrendo em Outeiro seco, num quarto rodeado de livros, recusando lavar-se e fazer a barba. A outra irmã, a minha trisavó, que tinha todas as qualidades para fazer um belíssimo casamento, beleza, um bom-nascimento e fortuna, acabou por se envolver com um padre, do qual teve dois filhos bastardos e acabou por morrer cedo, de doença prolongada, em 1902, triste e amargurada.

A primeira carta, do General António Ferreira Montalvão foi dirigida à irmã e embora não esteja datada, presumo que seja de meados da década de 70 do século XIX, numa época em que as relações entre os dois eram boas. Transcrevo aqui o seu conteúdo, que achei muito interessante.



Maricas

Recebi a tua carta e com ela o teu retrato, que muito te agradeço. Para te dizer o que sinto não o acho nada bem, todavia pode-se admitir-se como retrato tirado em Chaves e as tuas feições parecem um pouco manchadas com as bexigas.

Agradeço-te igualmente a lembrança de me mandares a prova do fumeiro, há alguma dificuldade em manda-lo, por isso se o Bastos não se encarregar de mandar pagar os direitos de entrada no Porto e de o mandar entregar na Estação Central do caminho-de-ferro no Porto, o melhor é não vir, porque eu não sei de me demorarei aqui ou se irei brevemente para Lisboa.

Quanto aos retratos que me pedes, não posso já obtê-los porque fui a Lisboa a um concurso e deixei lá a máquina. Neste concurso só apareceu mais outro, que tem menos habilitações e mais empenho que eu; se eu for o preferido como espero tornarei a ter férias para ir visitar-te todos os anos.

Recomenda-me a todas as pessoas que me mandaram lembranças.

A propósito do fumeiro, lembra-me de perguntar-te se já se pagou a despesa que fez o Celestino quando uma vez se encarregou de mandar-mo do Porto, a prima Amélia pode informar-te a este respeito. A despesa é pequena, mas se ainda não foi paga deve-o ser com brevidade.

Dispõe do teu irmão António

NB: Vai incluso conhecimento para tu mandares receber do Porto na estação central de Caminho-de-ferro, um aparelho que era para enxofrar as vinhas e para melhorar o vinho não deixando fazer vinagre. Podes encarregar o Bastos de tentar de o receber e conduzir para Chaves; deves dar-lhe o dinheiro para este fim e dizer-lhe que está num caixote que pesa menos que uma arroba.

Retrato da minha trisavó executado presumivelmente por Tomás Aquino Pacheco e ao qual se refere António Vicente na sua carta.


Creio que quando António Vicente se refere ao retrato da irmã, escrevendo que só era aceitável porque foi tirado em Chaves, trata-se certamente uma de duas fotografias, que eu tenho da Maria do Espírito Santo executadas pelo primeiro fotógrafo activo em Chaves, Tomás Aquino Fonseca, que a partir de 1876, estaria a trabalhar naquela terra transmontana. Igualmente interessante é que quando a Maria do Espírito Santo pediu um retrato ao irmão, este respondeu-lhe que foi a Lisboa e deixou lá máquina. Portanto, em meados dos anos 70 do século XIX, António Vicente já tinha uma máquina fotográfica, o que era raro para a época! Era realmente um homem tecnológico. Tenho três retratos dele, um assinado pelo H. Tisseron de Lisboa e outros dois sem marca de fotógrafo. Talvez um destes dois seja um auto-retrato feito com a sua própria máquina.




Dois retratos não assinados do General António Vicente Ferreira Montalvão. Poderão eventualmente ser auto-retratos.

Depois há dois parágrafos sobre o fumeiro, assunto recorrente em quase todas as cartas da família, pois enfim, todos eles eram bons transmontanos, de Chaves e o presunto, os chouriços, os salpicões enviavam-se a quem estava longe, ainda que o transporte fosse uma trapalhada, pois além das vias de comunicação deficientes, ainda existiam barreiras alfandegárias internas no País, que taxavam a entrada de bens de consumo nas cidades, como António Vicente bem refere.

Por último, sempre tecnológico, António Vicente, enviou à irmã um aparelho que para enxofrar as vinhas e para melhorar o vinho, não deixando fazer vinagre.

Pelas dúzias de cartas, que o meu trisavô, Liberal Sampaio enviou à Maria do Espírito Santo com conselhos pormenorizados sobre como gerir a casa agrícola, imagino que esta tenha recebido esta encomenda com horror, a pensar o que iria ela fazer daquele aparelho e de como explicaria aos trabalhadores agrícolas como usa-lo. A ideia que fiquei dela depois da leitura dessas cartas, é que seria uma mulher com pouco sentido prático da existência, que muito nova se viu sem os pais e os irmãos, a governar sozinha uma grande casa agrícola. Anos mais tarde, já no final da sua vida, quando sua relação com Liberal Sampaio azedou, escrevia cartas ao filho com longas queixas sobre ele e uma delas é que não tinha ido dar corda ao seu relógio. Enfim, não há muita arte em dar corda a um relógio.

Maria do Espírito Santo com os dois filhos que teve de Liberal Sampaio


Depois desta carta de meados dos anos 70 do século XIX, a Maria do Espírito Santo envolveu-se com o padre, do qual teve dois filhos e o António Vicente afastou-se da irmã, embora não tenham perdido inteiramente o contacto. Neste período de tempo, viu-se ainda a braços com a doença do outro irmão, Miguel José, em processo de loucura

Em 15 de Setembro de 1884, António Vicente escreve-lhe de Lisboa, a propósito do Miguel José.

Maricas

Há um ano que aí fui a tua casa para ver o nosso pobre irmão. Notei uma falta de asseio que muito me contristou. Há poucos dias fui informado de que não convinha de forma alguma que continuasse em tua casa. Receando que uma mudança de hábitos lhe possa ser fatal, abstenho-me por enquanto de tira-lo da tua companhia, pedindo-te que sejas caridosa para com ele. Parece-me que pedindo-te isto, não te peço muito, tratando-se de teu irmão, que como tu me disseste na última vez que te falei, tem para a despesa que faz mais do que o suficiente. Por reste motivo, espera ser atendido o teu irmão António.

Há aqui uma crítica aberta à Maria do Espírito Santo sobre a forma como trata o irmão louco. Falta de higiene e até de caridade foram as acusações que o António Vicente lhe fez. Claro, eu não sei o que passou exactamente. Esta carta é aliás o primeiro documento que leio sobre o assunto. Mas imagino o drama da minha antepassada, uma menina fidalga, educada para se casar com um fidalgo de boa estirpe da região ou com algum burguês ricalhaço, ao ter que tratar sozinha do governo de extensas propriedades e ainda de um irmão louco. Nesta época, a psiquiatria portuguesa estava a dar ainda os primeiros passos em Lisboa e em Chaves não existiria nenhum clínico especializado em doenças do foro mental que pudesse socorrer o pobre Miguel, que viria a falecer 6 anos mais tarde, em 8 de Setembro de 1890, aos 52 anos, enchendo os cabeçalhos dos jornais locais, com a notícia da morte do bacharel louco.

Volto a ter notícias do General António Vicente, através de uma carta de Liberal Sampaio a Maria do Espírito Santo, datada 19 de Julho de 1894. António Vicente encontrava-se em Chaves na companhia da sua filha Elina e Liberal escreve-lhe preocupado com a forma com que Maria do Espírito Santo estaria a receber o irmão, dando-lhe muitos conselhos.

Como seu irmão aí está com a pequena, deve oferecer-lhe essa casa enquanto estivera aí na vila [Chaves], a de Outeiro Seco se quiserem passar por lá algum tempo, e no caso mais provável de provável de ir para Dadim, é conveniente mandarem-lhe um cântaro de azeite, um presunto, algum fumeiro e pinga, um cântaro de vinho e outro de vinagre e algumas batatas. Mande de tudo isto, que ele tudo precisa comprar. Será também bom oferecer-lhe de empréstimo, alguns lençóis e cobertores, porque certamente não os traria de Lisboa. Enfim, diga-lhe que mande buscar com toda a franqueza tudo aquilo, de que necessitar.

O fumeiro voltou a ser tema recorrente, mas mais importante, é que através da leitura destes conselhos, noto novamente uma certa incapacidade da minha trisavó para a resolução de assuntos práticos da existência, tais como receber o irmão e a sobrinha, ou pensar em oferecer-lhe de empréstimo cobertores e lençóis. Talvez a Maria do Espírito Santo fosse como veio a ser a neta, a minha avó Mimi, que aliás tinha o mesmo nome próprio e ela também não sabia receber. Recordo-me da minha mãe me contar, que no Natal, quando íamos passar uns dias à sua casa de Chaves, tinha que improvisar lençóis com toalhas de mesa velhas, para fazer a cama onde o meu irmão e eu dormíamos, porque a minha avó Mimi não se lembrava desses pormenores.

Em todo o caso, a carta demonstra que apesar de um certo afastamento, a Maria do Espírito Santo e António Vicente, continuaram a relacionar-se.




A doce Elina. O verso é dedicado ao meu bisavô, que estima como a um irmão.


O último dado que eu conheço desta relação entre o general e a minha trisavó, ocorreu já em 1902, pouco depois da morte desta. O filho de Maria do Espírito Santo e do Padre Liberal Sampaio, o José Maria Ferreira Montalvão tomou-se de amores pela doce Elina, sua prima direita, a filha de António Vicente e quis mesmo casar com ela. O pai, Liberal Sampaio, um homem sempre sensato e avisado, escreveu-lhe uma longa carta a 3 de Julho desse ano, dissuadindo-o desse namorado.

Vejo que continuas teus devaneios ou antes ingenuidades com a prima. Não os repreendo, porque os considero produto de primeiras impressões; mas recomendo e exijo que, em tudo e por tudo te portes de modo que não melindres o teu tio e à prima não deias o mais leve ensejo de descobrir em teus actos e palavras qualquer atentado contra o decoro que lhe é devido, trata-a não como uma amante, mas como uma irmã inocente.

Inteligente, Liberal Sampaio não se opõe directamente à relação e afirma complacente. Em ninguém veria com mais gosto brilhar as jóias da tua inolvidável mamã do que a em tua prima, para quem ela as guardava com tanto cuidado.

Mas a tua prima, que teve a infelicidade se ser criada sem mãe e a desventura de não ter por mestra uma tia que por ela se desvelaria, ensinando-lhe o governo doméstico, será a que mais convenha para tua esposa, isto é, para consorte da tua vida, para mãe dos teus filhos, para governante da tua casa?


Carta de Liberal Sampaio ao filho desencorajando-o do namoro com a prima


Além do problema da consanguinidade que Liberal Sampaio teria presente, saberia bem que a Elina, dama do Paço, com o curso superior de piano, discípula de Viana da Mota era demasiado fina, doce e impreparada para se enfiar numa aldeia transmontana, em Outeiro Seco, governar um solar e a respectiva criadagem ou a coadjuvar o marido na administração da casa agrícola.

Retrato de José Maria Ferreira Montalvão em 1902


Não sei se foram os conselhos do pai, se a oposição do tio ou se a própria Elina o desencorajou, mas o que é certo é que o meu bisavô desistiu da ideia e casou no ano a seguir, em 1903, com Ana da Conceição de Morais Alves, filha de um burguês rico de Chaves e foi um casamento feliz e longo, do qual resultaram muito filhos e a com efeito a minha bisavó Aninhas sabia governar uma casa grande. Quanto à Elina casou mais tarde em 1910, com outro primo, mais afastado, mas morreu dois anos depois, deixando um filho pequeno e não consta que tenha sido feliz.


Verso do retrato de José Maria dedicado à sua adorada Elina

Dos devaneios que o meu bisavô sentiu pela filha do general, sobressai um pormenor curioso. Maria do Espírito Santo tinha guardado as suas jóias para a sobrinha, filha de um irmão que se afastou dela, em consequência do escândalo causado pelos filhos que teve do Padre.

Estas cartas devolvem aos dias de hoje o modo de vida do último quartel do século XIX, através das palavras dos que viveram esses acontecimentos.

Alguma bibliografia:

Famílias transmontanas : descendência de Francisco de Moraes, Palmeirim : ligações familiares e outras famílias de Trás-os-Montes / Francisco Xavier de Moraes Sarmento- . Ponte de Lima : Carvalhos de Basto, 200

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O gosto pela educação: os padres Liberal Sampaio e José Gonçalves Laje


José Gonçalves Laje


Já referi o Padre José Gonçalves Lage aqui no blog, como um homem das relações do meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935). Na altura em que escrevi o texto, encontrei o seu retrato, que dedicou ao meu antepassado com uma acrisolada amizade, provavelmente entre 1875-1880.

No seu tempo, este Padre Lage foi uma personagem com a sua importância, desenvolvendo uma actividade como autor bastante significativa. Escreveu manuais escolares de história, geografia, literatura, retórica e linguística. Ao todo contei 23 títulos assinados por ele no catálogo colectivo das bibliotecas portuguesas, o Porbase. José Gonçalves Lage e Liberal Sampaio eram conterrâneos de Sarraquinhos, Montalegre e eram provavelmente parentes, pois a avó do meu antepassado era de apelido Lage.

Dedicatória do Padre Lage a Liberal Sampaio no verso do retrato



Recentemente localizei duas cartas escritas a Liberal Sampaio pelo Padre Lage, datadas de 30 de Dezembro de 1880 e 2 de Fevereiro de 1881, que serviram de motivo para investigar alguns dados biográficos daquele autor de manuais escolares e ainda me esclareceram sobre alguns aspectos da vida do meu trisavô.

No portal O clero secular: elite socio-religiosa e lideranças eclesiásticas (séculos XIX e XX), que é um extraordinário levantamento de todos os padres activos em Portugal, encontrei o registo do Padre José Gonçalves Lage, que me revelou a data exacta do seu nascimento, 10 de Março de 1838 em Sarraquinhos, Montalegre, filho de Bento Gonçalves Lage e Ana Goncalves Pelho e ainda consegui aproximar-me um pouco mais do ano da sua morte. Em 2020, quando escrevi sobre o assunto, referi que a última obra que assinou foi em 1901 as Noções elementares de geographia, chronologia e chorographia de Portugal, mas já adaptadas por L. Pinto da Rocha e que nesse ano já teria falecido. Ao consultar os registos da última paróquia de que foi cura, Vila Nova de Anços, concelho de Soure, distrito de Coimbra, apercebi-me que o último assento redigido pelo Padre Lage foi em 18 de Novembro de 1895. O primeiro assento de 1896 foi já assinado por um novo pároco José Maria Simões da Silva. Em suma, José Gonçalves Lage terá morrido entre finais de 1895 e 1901

O percurso do Padre Lage em O clero secular: elite socio-religiosa e lideranças eclesiásticas (séculos XIX e XX),



Na carta de 30 de Dezembro de 1880, dada em Coimbra, que dirigiu ao meu trisavô, que trata por tu, refere que Liberal terá muitas moedas em duplicado. Há aqui um lente meu amigo que anda fazendo uma colecção e a comprar a torto e a direito quantas lhes apareçam. Agradeço-te que cedas todas as que não que não te fizerem falta. Pede por elas o que entenderes e aí te será remetido (…) Tenho interesse em que cedas essas velharias de moedas duplicadas, não só porque te serão bem pagas, mas também porque desejaria satisfazer aquele lente, que é o meu amigo.

Na carta seguinte de 2 de Fevereiro de 1881, o assunto evoluiu e o Padre Lage escreveu Pelo que respeita às medalhas e moedas, desde já conto com elas, e provavelmente recebes as 100 libras pela colecção, mas é necessário elas virem à mostra. (…) Se fosse possível manda-las num caixote pregado por um almocreve para Braga, dali vinham facilmente para aqui. Eu respondo e comprometo-me por tudo. Pensarás e veremos se se pode resolver este problema com vantagem para os teus interesses e para as minhas conveniências. E digo minhas conveniências, porque as tenho em servir este homem.

Carta de 2 de Fevereiro de 1881,



Naturalmente sabia que o meu trisavô Liberal Sampaio foi um numismata e uma parte da sua colecção chegou aos nossos dias, mas não fazia a ideia de que em 1880 já tinha reunido um conjunto significativo e de boa qualidade, pois 100 libras era uma soma muito considerável na década de 80 do século XIX. Segundo Jaime Reis em Aspectos da história monetária portuguesa da segunda metade do século xix, a moeda de ouro que circulava livremente no país tanto poderia ser a cunhada pela Casa da Moeda como a libra esterlina, cujo valor se fixava em 4$500 réis. Portanto 100 Libras equivaleriam a 450 000 réis, quase metade de um conto de réis. Não sei se Liberal Sampaio chegou a concluir o negócio, mas era vulgar os coleccionadores venderem parte ou a totalidade das suas colecções e voltarem a comprar mais tarde peças de melhor qualidade. Ainda há uns tempos pouco falar desse aspecto numa inauguração de uma exposição no MNAA, dedicada a Guerra Junqueiro, como coleccionador de arte.

Carta de 2 de Fevereiro de 1881



E no período em que estas cartas foram escritas, o meu antepassado precisava de dinheiro. Em 1879, sem dúvida em consequência de um certo escândalo provocado pelo nascimento do seu filho com uma fidalga de uma família muito conhecida de Chaves, perdeu o seu lugar de pároco de Outeiro Seco, deve ter caído em desgraça e feito os seus inimigos. Claro, ele lá tinha as suas terras lá por Montalegre que lhe dariam algum rendimento e a sua actividade de pregador, mas pela leitura destas cartas parecia realmente estar em apuros financeiros.

Carta de 2 de Fevereiro de 1881



Segundo, a breve biografia que a minha avó traçou dele, nestes tempos, entre 1879 e 1886, antes de ir para a Universidade de Coimbra, Liberal Sampaio Liberal Sampaio formou uma escola de em Outeiro Seco, onde ministrava latim, português, história e filosofia, mas nunca encontrei nenhum documento da época sobre a sua existência. Presumo que fossem aulas particulares.

Liberal Sampaio terá escrito uma carta ao Padre José Gonçalves Lage falando nessa escola e em resposta, a 2 de Fevereiro de 1881, o segundo viu a luta travada entre Liberal e esses gigantes. Nasceste para a luta e para a vitória. Não são capazes de te vencer e bem o estimo. (…) Aqui estou para te coadjuvar em tudo o que puder e com máxima lealdade.

Se os teus calouros tiverem de fazer exame aqui [em Coimbra] garantia-te muito bons serviços.

(…) lembro-te de que também em Braga te posso ajudar por causa dos teus calouros. Há ali uns professores novos para quem se arranjará daqui bons empenhos. Eu tomo pela tua causa tanto empenho como pela minha: a nossa causa é comum.

A eles, a eles! Por aqui também há santarrões como os missionários de Barroso. Creio nos homens bons. E estimo-os, mas quando são hipócritas…

O Padre Lage prossegue a sua carta, prontificando-se a apoiar a escola enviando livros, nomeadamente um Vírgilio e para português, remeterá uma Poética, obra da sua autoria, da qual modestamente diz. Não será boa, nem é completa, mas tem corrido muito e foi muito bem recebida. Foi adoptada nalgumas partes e tem salvado já muito calouro.

Anuncia que está a preparar uma gramática. Tem-me dado muito trabalho, mas está quase pronta. Julgo que há-de primar pela clareza. E com efeito, esta obra, que será publicada com o título Novissima grammatica portugueza, em 1882, é hoje ainda considerada um marco pelos especialistas, embora a sua restante obra esteja completamente esquecida.

Estas duas cartas permitiram-me conhecer um pouco melhor o Padre Gonçalves Lage, esse autor de manuais escolares do século XIX, mas sobretudo saber um pouco mais Liberal Sampaio como Numismata, que logo muito cedo, em 1880, já tinha uma colecção de moedas que valeria 100 libras. Achava que só mais velho, depois de se formar e de estabelecer como advogado em Chaves e alcançar mais desafogo económico é que se teria dedicado a colecionar moedas. Mas, pelo vistos, o seu o gosto pela história e antiguidades começou cedo e na região de Chaves era vulgar aparecerem muitos vestígios romanos. A segunda carta é o primeiro documento primário que encontro sobre a escola que Liberal Sampaio formou em Outeiro Seco, embora aqui apareça referida de uma forma indirecta. Só tenho pena de não ter acesso às cartas que o meu antepassado escreveu ao Padre Lage, onde certamente contou pormenores sobre a escola, as dificuldades e os sucessos e como funcionava. Mas os espólios documentais são por natureza truncados, só temos acesso à correspondência recebida, o resto há que deduzir.

Liberal Sampaio
Liberal Sampaio cerca de 1875



Bibliografia:

Aspectos da história monetária portuguesa da segunda metade do século xix / Jaime Reis
In
Análise Social, vol. xxix (125-126), 1994 (l.°-2.°), 33-54


Dr. Padre José Rodrigues Liberal Sampaio / Maria do Espírito Santo Ferreira Alves Montalvão Cunha
in
I Jogos florais de Montalegre. - Montalegre: Câmara Municipal de Montalegre, 1981. - 47-53 p.

O clero secular: elite socio-religiosa e lideranças eclesiásticas (séculos XIX e XX)

domingo, 16 de novembro de 2025

Uma dama desconhecida de um velho álbum de retratos carte-de-visite


Antiga Casa Fritz, na Rua do Almada, nº 122, Porto


Desde alguns anos para cá, tenho apresentado retratos de dois velhos álbuns carte-de-visite da família Montalvão, que a minha Ana Paula Vasques me ofereceu e com efeito, foram das prendas que mais gostei e mais prazer me deram na vida. Cataloguei sistematicamente todas as fotografias, mas há umas quantas sem legenda ou dedicatória, cuja identificação é praticamente impossível. Uma boa parte deles são retratos de senhoras, jovens ou meninas, que não fizeram nada de notável para que as suas fotografias constassem das páginas de uma enciclopédia, de um periódico ou de uma monografia regional. Também não posaram com uniformes militares ou trajes de estudantes de Coimbra, cujos elementos ajudariam à sua identificação. Usaram apenas as suas melhores jóias e vestidos e fizeram-se pentear à altura da ocasião do retrato, que era especial, pois a fotografia ainda era um luxo de gente abastada.

Antiga Casa Fritz, na Rua do Almada, nº 122, Porto
A desconhecida uso um penteado à maneira da Imperatriz Eugénia do Montijo


Um desses retratos é o de uma senhora jovem, tirada na década de 70 do século XIX, nos estúdios de Antiga Casa Fritz, na Rua do Almada, nº 122, Porto. Encontro nelas algumas semelhanças com a minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902). Os olhos grandes parecem-me os mesmos, bem como o nariz e os lábios, mas não tenho a certeza. Claro, nos retratos que tenho da minha trisavó e tenho 5 ao todo, ela parece ter os olhos mais claros e os cabelos mais claros, que o da desconhecida, mas as fotografias da época não reproduziam as cores e eram retocadas. Além disso as mulheres na década de 70 do século XIX, também alteravam a cor do cabelo, uma técnica imemorial, que já deve vir do tempo dos romanos ou dos gregos, pelo menos.

Inverti o retrato da desconhecida para o comparar com o da minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, tirado pelo pelo fotografo Tomás Aquino Pacheco


Pedi a opinião a um amigo meu, que sabe muito de fotografia e é observador, o Humberto Ferreira e foi de opinião que apesar de algumas semelhanças, uma e outra não são a mesma pessoa.


Poderia talvez esta retratada ser a irmã da minha trisavó, a Henriqueta, (14.10.1847-25.1.1873), que faleceu com 26 anos. Com efeito, esta desconhecida da fotografia em causa, parece estar penteada a um estilo anterior aos retratos da minha trisavó, ainda à maneira da Imperatriz Eugénia do Montijo, que ditou às modas na Europa entre 1853 e 1870 e portanto este retrato poderia sido tirado logo no início da década de 70. Mas não tenho nenhum retrato da Henriqueta Ferreira Montalvão para comprovar que esta desconhecida seja ela.

A imperatriz Eugénia do Montijo. ca. 1860-1870, fotografia de Olympe Aguado, Musée Carnavalet. Paris

Tentei datar a fotografia pelo verso, a marca do fotógrafo, que como referi é da Antiga Casa Fritz, na Rua do Almada, nº 122, Porto. O célebre fotografo Emílio Biel adquiriu a este estúdio a Joachim Friedrich Martin Fritz em data incerta, talvez 1874 que passou a designar-se Antiga Casa Fritz. O cartão apresenta também as marcas E.B e F.B., iniciais correspondentes a Emílio Biel e ao seu sócio Fernando Joan Martin Niels Brütt, que formaram sociedade em 1876. Em suma, as presumíveis datas da prova fotográfica são posteriores ao falecimento em 25 de Janeiro de 1873 da pobre Henriqueta, minha tia trisavó






Mais ainda, o verso das retratos, em que minha trisavó se fez fotografar com um elaborado penteado, bem à moda segunda metade da década de 70, também na Antiga Casa Fritz, são exactamente iguais aos da desconhecida.

Antiga Casa Fritz, na Rua do Almada, nº 122, Porto
Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão retratada na antiga Casa  Fritz



Antiga Casa Fritz, na Rua do Almada, nº 122, Porto
Retrato de grupo em que consta Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, também da Antiga Casa  Fritz



Portanto, pelas datas inferidas das provas fotográficas os retratos da desconhecida e os da minha trisavó são da mesma época, apesar dos penteados acusarem modas de períodos diferentes.

A última moda de penteados em 1875, ao mesmo gosto daquele usado pela minha trisavó nas fotografias da antiga Casa Fritz



Contudo, como o Emílio Biel ficou com a casa de Joachim Friedrich Martin Fritz é muito natural que tenha guardado os negativos da anterior gerência e alguém, talvez a Maria do Espírito Santo, tenha pedido uma nova prova de um retrato antigo da irmã, colada num cartão novo, com as marcas da nova firma.


Enfim, nada disto é conclusivo. Eu gostaria que esta dama fosse a Henriqueta, pois tenho curiosidade nesta figura. Tenho algumas cartas dirigidas a ela pelos outros dois irmãos, o António Vicente Ferreira Montalvão (1840-1919 ), o Miguel José Ferreira Montalvão (1838-1890) e parece ser sido uma pessoa com peso na família. Sei igualmente que era muito devota, através das cartas, que recebia com regularidade do Padre José Lopes de Oliveira Pojeira, cheias de pensamentos cristãos profundos. Mas, a história não é aquilo que nós desejamos e esta desconhecida poderá ser uma prima ou outra jovem qualquer amiga. Mas como estes retratos eram feitos em 8 exemplares, talvez alguma família originária de Chaves conserve uma fotografia desta dama desconhecida, mas identificado e venha parar aqui ao blog através de uma pesquisa no google. Já aconteceu por mais que uma vez.






Algumas ligações consultadas:



sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Um tête-à-tête de Limoges para um homem só



Este pequeno serviço de chá incompleto foi a minha última compra na feira de velharias de Estremoz. Foi uma tolice, pois não preciso dele para nada, tenho um belo serviço de chá da Vista Alegre, com uma marca usada ente 1922-1947, herdado da minha avó Mimi e que está completo, além do mais, não tenho propriamente vida para oferecer chá e bolos aos dias de semana, nem tão pouco ao fim-de-semana.

Mas o serviço era tão bonito e como estava a um preço convidativo lá voltei eu com ele debaixo do braço. É aquilo que se designa pela expressão francesa, tête-à-tête, isto é um serviço de chá para duas pessoas. Fiz até a experiência, enchendo o bule de água e serve exactamente para dois, ou melhor, cada pessoa pode tomar duas chávenas de chá. O servicinho está incompleto, falta-lhe uma das xícaras e o tabuleiro, que fazia quase sempre parte destes conjuntos.

A decoração dourada em relevo


O serviço não apresenta qualquer marca e se a teve, estaria talvez na chávena que se perdeu ou no verso do tabuleiro em porcelana. A decoração é rebuscada, estilo rocaille, com dourados em relevo, mas a grinalda de flores, que corre já tem um certo movimento da arte nova. Enfim, é um conjunto típico dos finais do século XIX ou eventualmente dos primeiros anos do XX, em que se mistura um pouco de todos os estilos.

No início quando o comprei, pensei que se tratava de qualquer coisa alemã, ou checa, ou para ser mais exacto da Boémia Morávia, já que a Checoslováquia só surgiu como estado independente em 1918. Contudo depois de buscas sistemáticas no google encontrei à venda uns quantos serviços de Limoges da época já acima referida, com a mesma decoração rebuscada e dourados em relevo. O problema é que temos todos a ideia feita de que existiu e existe apenas uma fábrica de porcelana em Limoges, a Haviland. Contudo, à época em que este serviço foi executado existiam umas quantas fábricas na cidade de Limoges, produzindo porcelana e claro, muitas das suas peças eram relativamente parecidas, pois procuravam satisfazer o gosto da época e toda a gente queria louça sumptuosa ao estilo Luis XV, Luís XVI, com muito e muitos dourados, enfim uma produção pour épater le Bourgeois como dizem os franceses.

Serviço de chá Limoges à venda na Proantic



Tête-à-tête de Limoges à venda na Proantic. O meu serviço terá tido um tabuleiro como o deste


Não consegui concluir qual das fábricas poderá ter executado este serviço, mas foi certamente em Limoges, algures entre 1890 ou 1900 e poucos.

É um tête-à-tête, expressão francesa, que designa uma situação de duas pessoas a sós, seja para uma conversação privada ou para uma refeição. Como só tenho uma chávena no serviço e sou um homem só, talvez esta compra não tenha sido tão inútil e nele ofereça um chá a mim próprio.



sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Maria Montalvão Cunha, Liberal Sampaio e o Abade de Baçal

Maria de Montalvão Cunha (1907-2000)


Maria de Montalvão Cunha não foi exactamente uma avó carinhosa, nem tão pouco uma mãe extremosa ou uma esposa afectiva. Só quando entrei na adolescência é que passei a aprecia-la e a descobrir as suas qualidades. Como já não eramos uns miúdos parvos, conversava então connosco sobre história, o passado da família, mostrava as relíquias familiares e acompanhava-nos nas visitas ao Solar de Outeiro Seco e até ao Museu Municipal de Chaves, que na altura estava fechado ao público e ela lá conseguia uma visita especial para nós. Era uma mulher que apreciava rodear-se de coisas boas e dela herdei um certo gosto quase eclesiástico pelos damascos e móveis pesados nos estilos portugueses. Intelectualmente tinha o seu valor. Foi uma colaboradora assídua na imprensa periódica de Chaves de Bragança, mas também do Comércio do Porto, um jornal muito lido no Norte, mas também com uma difusão nacional. Para uma senhora de província nos anos 30, 40 ou 50 esta actividade literária era notável. Quando recentemente andei a organizar os jornais onde escreveu, reparei que naquela época as poucas colaboradoras no Comercio do Porto escreviam sobre modas, culinária, bordados ou davam conselhos úteis sobre como tirar nódoas difíceis das camisas do marido. É certo que a minha avó estava também confinada à página feminina, mas fazia contos e crónicas. Além dela, a única execepção à essa regra que encontrei foi a Ilse Losa.

A minha avó tinha um estilo um bocadinho floreado e era superficial, mas em plena época da ditadura salazarista não se queriam ideias muito profundas, nem temas polémicos, muito menos escritos pela mão de uma senhora. Mas por vezes, no meio daqueles devaneios literários tinha momentos de verdade ou pelo menos convincentes, pois é certo que a verdade é uma coisa relativa e cada um a constrói à sua maneira.

O capote do avô, evocação de Liberal Sampaio, escrito por Maria de Montalvão Cunha e publicado no Comércio do Porto em 20-3-1947


Nestas férias, quando aproveitei para avançar mais no tratamento do espólio encontrei uma carta do abade de Baçal, dirigida aos meus avós, anexando um artigo do comércio Porto, de 20-3-1947, escrito pela minha avó, a Mimi, como nós a conhecíamos, que o tocou particularmente e é de facto um texto sensível.

É uma evocação dos seus tempos de infância, das noites do rigoroso Inverno transmontano, em frente à lareira, quando o avô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935), sentado no escano, abrigava os seus netos debaixo do seu capote, como uma galinha aninhava os seus pintainhos. Depois refere, o tempo em que os irmãos e ela cresceram, são adultos e sentem pudor em se agarrar e acarinhar o avô, embora às vezes, como ela própria escreve, parecia-nos até que o avô, ao olhar para o seu capote vazio, ficava triste e desolado. Sublinha também a importância que o avô teve no seu crescimento cultural, com as histórias maravilhosas, que contava, das terras todas que tinha corrido, do amor pela natureza e ainda quando o ajudava a limpar a sua extensa biblioteca.

Liberal Sampaio com o filho, nora e os netos. Estes últimos tratavam o avô carinhosamente por Lili


O Abade Baçal, como ficou conhecido Francisco Manuel Alves (1865-1947), tinha conhecido muito bem Liberal Sampaio, o meu trisavô. Com efeito, aquele historiador e etnógrafo foi Abade de Mairos entre 1889 e 1896, uma aldeia nas cercanias de Chaves e nessa época os dois padres terão travado conhecimento e estabelecido uma relação intelectual. Referindo-se ao meu trisavô, o Abade de Baçal escreveu foi ele que me indicou os livros a consultar. Foi ele que me facilitou a leitura de preciosas raridades bibliográficas da sua enorme biblioteca que por serem raríssimas, senão únicas, por serem caríssimas, só acessíveis a amadores ricos, eu nunca chegaria a ler.

Por essa razão, o Abade Baçal ter-se-á encantado tanto com a evocação que a Mimi fez de Liberal Sampaio e tenha pegado na caneta para lhe escrever. Mas, não terá só sido só por esse motivo, mas também pelo talento e sensibilidade com que minha avó captou as noites geladas dos Invernos transmontanos, onde toda a família se juntava na cozinha, junto do fogo, aninhados nos escanos, protegendo os mais pequenos do frio. Para os que não são transmontanos, os escanos são uma espécie de bancos longos, com costas e com uma prancha de madeira, que se pode rebater, servindo de mesa de refeições.
Cenário do conto o Capote do avô, a cozinha do Solar de Outeiro Seco, já no tempo em que a casa tinha sido vendida à Câmara Municipal de Chaves e estava já ao abandono. Vê-se ainda um escano, embora eu tenha ideia, que houvesse dois.

Transcrevo aqui um excerto dessa carta do Abade de Baçal, como homenagem à minha avó Mimi, que embora não soubesse cozinhar, nem dar mimos aos netos, foi uma mulher com o seu valor, aliás no tempo em que viveu em Bragança, juntamente com o marido, o meu avô Silvino fizeram parte do círculo daquele historiador.

Li e reli o belo artigo do Capote do avô no Comércio do Porto.

Que grandiosidade de sentimentos, de ternura, de piedade. Quanta meiguice, devoção, saudade inculcam aqueles traços magistrais referentes à descrição do avô, metódica em tudo, de “voz compassada e terna” a contar histórias aos netos, tendentes a despertar neles o amor da beleza e do bem fazer.

Com que graça eu estava a ver os miúdos montalvãozinhos a formigar em volta do sábio e bondoso doutor José Rodrigues Liberal Sampaio, que sorridente, bonacheirão, abrigava a ninhada sobre complacente o amplo capote, como a galinha congrega os pintainhos "sub alas" na frase bíblica e complacente olhava satisfeito as cabecitas dos que assomavam à janela.

Com que arte e relevo V. Exa. Soube dispor tudo isto e despertar nos leitores de tão belo artigo, a comoção por esse espírito que a “sorrir, a fitar-nos, a dizer-nos um adeus que era uma saudade, um adeus que era um mundo de ternura, que nos deixou” e partiu para a eternidade.




Carta do Abade de Baçal



Bibliografia:

BAÇAL, Abade de / Ana Celeste Glória
In Dicionário Quem é Quem na Museologia Portuguesa. Lisboa: Instituto de História da Arte, 2019 https://research.unl.pt/ws/portalfiles/portal/29007003/30_33.pdf

Dr. Padre José Rodrigues Liberal Sampaio / Maria do Espírito Santo Ferreira Alves Montalvão Cunha
in
I Jogos florais de Montalegre. - Montalegre: Câmara Municipal de Montalegre, 1981. - 47-53 p